Maria Filipa Vaz Torres Portefólio de Estágio · MEAV

Arte e Cidadania

Corpo Presente/Ausente

O desenho da figura humana como prática de atenção, cidadania e relação com o outro.

Autora: Maria Filipa Vaz Torres Orientação: Prof.ª Doutora Sandra Palhares Cooperante: Prof.ª Marta Coutinho Universidade do Minho · Maio de 2026

Índice

Navegar pelo portefólio

Reúnem-se aqui os instrumentos didácticos desenvolvidos durante o estágio, organizados pela estrutura do portefólio. Os documentos podem ser consultados diretamente nas páginas dos dois projetos.

Projetos em destaque

Os dois projetos didácticos

01 · Introdução

Introdução

O portefólio foi desenvolvido no âmbito do estágio do Mestrado em Ensino de Artes Visuais no 3.º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário (MEAV) da Universidade do Minho, curso concebido pelo Instituto de Educação e pela Escola de Arquitetura, Arte e Design e lecionado nos campi de Gualtar (Braga) e Couros (Guimarães). O documento destina-se a descrever, justificar e classificar a execução do Projeto de Intervenção Pedagógica (PIP) e todos os seus procedimentos e decisões.

Encaro-o ainda como uma ferramenta de apoio à minha carreira futura, sobretudo nos primeiros anos, e como espaço de reflexão e organização de aprendizagens, numa postura de ponderação, questionamento e curiosidade alinhada com a abordagem da investigação-ação.

Nota biográfica

Depois de estudar Artes Visuais na Escola Secundária Carlos Amarante (a mesma onde realizo o estágio), licenciei-me em Design e Marketing de Moda na Universidade do Minho em 2017, trabalhei cerca de dois anos em design têxtil e concluí o curso supletivo de canto no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian. Durante a pandemia dediquei-me à música, lançando em 2021 o meu disco autoral «Moldura», com concertos no Theatro Circo, no Fórum Braga e no Paço dos Duques de Bragança.

O interesse pelas Artes Visuais e pela História da Arte levou-me a reingressar na UM em 2022, onde descobri a vocação para o ensino e me candidatei ao MEAV no seu ano de inauguração. Mantenho-me ativa na música como trabalhadora independente e perspetivo iniciar a carreira na docência, que considero a área mais nobre.

Filosofia de ensino

Ligo a minha filosofia de ensino ao percurso académico, profissional e pessoal, defendendo o desenvolvimento incessante do indivíduo e a ideia de que o professor aprende durante toda a carreira. Identifico-me com um posicionamento curricular centrado no processo (Flores, 2000), com a figura do professor-investigador (Stenhouse) e com a aprendizagem significativa e construtivista, vendo o desenho como forma de compreender o mundo.

Convoco a profecia autorrealizada de Rosenthal e Jacobson (1968) para defender a confiança do aluno em si próprio, e mobilizo Cury, Read e Sharples («aprender a aprender») em defesa de um ensino capacitante. Foi à luz desta visão que desenvolvi o PIP, articulando o desenho da figura humana com a Cidadania e Desenvolvimento — em resposta a uma turma pouco participativa — em alinhamento com a ENEC e com a visão de Dewey em «Art as Experience» (1934).

02 · Enquadramento

Enquadramento do projeto

A escola

O projeto desenvolveu-se na Escola Secundária Carlos Amarante, uma das mais antigas de Braga, no centro da cidade, integrada num agrupamento que vai do pré-escolar ao secundário regular e profissional e à educação de adultos, com grande diversidade cultural (484 alunos estrangeiros de 45 nacionalidades). O Projeto Educativo assume uma visão humanista, alinhada com os Direitos Humanos, e a escola desenvolve ainda o Projeto de Educação para a Saúde e o Plano Cultural de Escola, de perspetiva artística, intercultural e interdisciplinar.

A turma

A turma do 12.º ano de Desenho A era inicialmente constituída por 20 alunos, com idades entre os 16 e os 18 anos e predominância feminina (14 raparigas e 5 rapazes). Era uma turma respeitadora e tranquila, mas com perfis diversos — alguns alunos autónomos e organizados, outros com menor compromisso —, resultando num ritmo de trabalho variável.

As necessidades identificadas

A primeira necessidade identificada foi promover a participação e a comunicação oral em grupo, dado que a turma era pouco participativa e inibida na exposição de ideias — inibição associada a situações de bullying reportadas no passado dos alunos. A segunda prendeu-se com o desenvolvimento da atenção e de formas mais conscientes de presença. Em resposta, tornou-se pertinente um projeto centrado no corpo, na atenção ao outro, na empatia e na experiência artística coletiva, articulando o desenho com a cidadania e a reflexão sobre saúde mental.

Intencionalidade da ação pedagógica

Desenhou-se o projeto «Corpo Presente/Ausente», articulando o desenho da figura humana com a Cidadania e Desenvolvimento, em sintonia com os documentos orientadores (Aprendizagens Essenciais, ENEC, Perfil dos Alunos e Decretos-Lei n.º 54/2018 e 55/2018). A intencionalidade reside na promoção de uma visão humanista e empática da sociedade, explorando a figura humana — em especial as mãos, como símbolo de identidade, trabalho e ação humana — em escala aproximada do real e culminando numa instalação coletiva.

Objetivos gerais: articular as Aprendizagens Essenciais das duas disciplinas; promover a consciência de pertença e responsabilidade social; desenvolver competências de expressão e representação; criar pontes entre escola, comunidade e espaços culturais; e fomentar o trabalho colaborativo e a criação coletiva.

03 · Fundamentação teórica

Metodologia de projeto

O PIP decorreu ao longo do 2.º período (fevereiro e março de 2026) com a turma do 12.º ano de Desenho A. Estruturou-se segundo a metodologia de trabalho de projeto, inspirada em Dewey, que atribui função nuclear ao problema enquanto propulsor da atividade e assenta na cooperação entre saberes, contextos e experiências. A metodologia organizou-se em cinco etapas, precedidas de uma fase de reflexão prévia.

1

Definição do problema

Exercício de consciência corporal e análise dialogada de obras (Carlos Bunga, Abramović, Mendieta, Helena Almeida e, sobretudo, Lourdes Castro) origina o problema gerador: o corpo como presença/ausência e o desenho como ato de cuidado.

2

Saberes prévios

Mentimeter — «Como caracterizas o estado mental da nossa sociedade numa só palavra?» — seguido da proposta de trabalho e da Tarefa n.º 1 (estudo estrutural da figura a partir de modelo voluntário).

3

Preparação e planeamento

Na Tarefa n.º 2, cada aluno fotografa e estuda uma pessoa do seu quotidiano; o trabalho individual culmina numa instalação coletiva, opção justificada pela avaliação justa e pela preparação para o exame.

4

Monitorização

Acompanhamento individualizado na Zona de Desenvolvimento Proximal (Vygotsky), com feedback formativo e modelação (Bandura); ensaio coletivo de montagem e ampliação dos desenhos por projeção.

5

Avaliação

Avaliação formativa e contínua, com justificação escrita, grelha de observação e rubrica; montagem da instalação no Mosteiro de Tibães e reapresentação na biblioteca escolar.

Ajustes face ao plano inicial. Numa postura de professor-investigador, acrescentaram-se as aulas expositivas sobre as mãos e sobre instalação artística, e alterou-se «escala real» para «escala aproximada do real» devido às limitações dos suportes, sem comprometer os objetivos.

Calendarização

A intervenção decorreu no 2.º período, com a turma do 12.º ano de Desenho A, cujo horário incidia à quinta-feira e sexta-feira de manhã. O quadro seguinte sintetiza as fases, os dias e as principais atividades efetivamente realizadas.

FaseDiaAtividades principais
IntroduçãoApresentação breve 30 jan Introdução/apresentação do projeto a desenvolver e preparação/contextualização da visita de estudo.
PesquisaCentro de Arquitetura do MAC/CCB, MAAT e Lx Factory 5 fev Visita de Estudo a Lisboa (1.º dia): Fundação Gulbenkian e instalação de Carlos Bunga (referência conceptual para o projeto).
PesquisaMUDE; Fundação Calouste Gulbenkian 6 fev Visita de Estudo a Lisboa (2.º dia): contacto com a arte contemporânea.
IntroduçãoSensibilização e arranque · 1.ª aula supervisionada 12 fev Exercício de consciência corporal («corpo presente»); análise dialogada de obras; auscultação de saberes prévios com Mentimeter; desenhos rápidos estruturais da figura (tarefa n.º 1).
PesquisaObservação e estudos 19 fev Conclusão da tarefa n.º 1; início da tarefa n.º 2: pesquisa e seleção de uma pessoa do quotidiano e estudos de observação da figura.
PesquisaObservação e estudos 20 fev Estudo das mãos, após apresentação teórica; trabalho a carvão.
Desenvolvimento2.ª aula supervisionada 26 fev Conceito de instalação («O que é uma instalação?»); ensaio coletivo de montagem; desenvolvimento do trabalho individual.
Desenvolvimento 27 fev Definição coletiva da escala das peças; desenho expressivo final da figura e das mãos (tarefa n.º 2).
FinalizaçãoOficina 5 mar Desenvolvimento do desenho final; digitalização e upload na Classroom; início da transferência para escala aproximada do real (papel de cenário).
FinalizaçãoOficina 6 mar Ponto de situação; esclarecimento da justificação escrita; divisão em dois grupos (sala: ampliação à escala / oficina: mãos a carvão).
Finalização 12 mar Conclusão da transferência para escala aproximada do real (repetição de alguns desenhos por deformação do projetor); mãos a carvão vegetal na oficina.
FinalizaçãoÚltima aula assistida 13 mar Reflexão coletiva (trabalho individual vs. peça coletiva); análise conjunta dos trabalhos; apresentação do protótipo; conclusão dos trabalhos e entrega da justificação escrita.
FinalizaçãoExposição 19 mar Montagem da instalação no Mosteiro de Tibães.
FinalizaçãoExposição 21 mar Inauguração da exposição «Artes na Escola», aberta à comunidade.
Avaliação 26 mar Análise dos diários gráficos e do trabalho realizado fora da aula.
Avaliação 27 mar Inquérito de autoavaliação/feedback; classificações finais com justificação individual.

04 · Instrumentos de recolha de dados

Como se avaliou o projeto

Análise de conteúdo

Corresponde aos desenhos, concretizações gráficas, caderno/diário gráfico e portefólio produzidos. No PIP traduziu-se na avaliação de todos os elementos gráficos: esboços rápidos, estudos estruturais (Tarefa 1), estudos da figura e das mãos (Tarefa 2) e o desenho em escala aproximada do real (Tarefa 3).

Inquérito

Estímulo à partilha, ao diálogo bilateral e à discussão de ideias, particularmente pertinente numa turma cujas competências comunicativas exigiam estímulo constante. Concretizou-se no Mentimeter inicial e em momentos de discussão em grupo-turma, ocasiões também de auto e heteroavaliação contínua.

Observação

Acompanhamento diário do trabalho em aula, considerado o instrumento mais fidedigno por testemunhar o progresso quotidiano; utilizou-se uma Grelha de Avaliação Diária cedida pela professora cooperante. Reproduz-se abaixo a sua estrutura.

Grelha de Avaliação/Observação Diária — 12.º N, Desenho A, 2.º Período

Grelha de Avaliação/Observação Diária utilizada em aula (cedida pela professora cooperante). Os nomes dos alunos e os registos foram removidos por privacidade; mantém-se apenas a estrutura de critérios.

Avaliação sumativa

Construiu-se uma rubrica integradora que articula numa classificação final os dados da análise de conteúdo e da observação. Organizada em critérios com descritores de desempenho numa escala de 200 pontos, abrangeu o conhecimento de tipos de expressão, a pesquisa e seleção de imagens, a estrutura, execução e criatividade (com maior peso), o domínio da linguagem plástica, a exploração dos meios atuantes, a autonomia e a autoavaliação.

Grelha de critérios de avaliação
Grelha de critérios Domínios, critérios e cotações da série «Corpo Presente/Ausente».
Rubrica com descritores de desempenho
Rubrica de avaliação Critérios e descritores de desempenho (Muito Bom · Bom · Suficiente · Insuficiente).

07 · Desenvolvimento da prática

Observação da prática e outras atividades

Para além dos dois projetos letivos, o estágio incluiu a observação da prática pedagógica e a participação num conjunto de atividades de escola.

Observação e análise da prática pedagógica

Reuniões de Departamento/Grupo e Conselhos de Turma

Momentos centrais de planificação e coordenação (planificações anuais, critérios de avaliação, análise do sucesso escolar). Os Conselhos de Turma, no início do ano e no final de cada período, fazem o balanço, propostas de classificação e articulação com Cidadania e Educação Sexual. O acompanhamento de vários grupos-turma, do regular e do profissional, aprofundou a perceção das dinâmicas internas. Estes momentos são estruturados por uma ficha de apoio.

Ficha de apoio ao Conselho de Turma
Ficha de apoio ao Conselho de Turma Contribuição da disciplina de Desenho para o Conselho de Turma de avaliação do 2.º Período (12.º N).

Educação inclusiva: medidas e acompanhamento

O contacto mostrou que a inclusão faz parte do funcionamento diário da escola. Conheceram-se as medidas do Decreto-Lei n.º 54/2018 (Universais, Seletivas e Adicionais), os documentos orientadores (RTP, PEI, PIT) e o papel da EMAEI, com o acompanhamento de um aluno com PEA (11.º ano) e de uma aluna com paralisia cerebral (12.º ano), constatando-se que uma inclusão verdadeira não deveria depender apenas da boa vontade do professor.

Observação de uma aula de E.V. (7.º ano)

Aula sobre desenho geométrico introdutório, com demonstração direta. O aspeto mais marcante foi a gestão de uma turma numerosa: ao notar cansaço, a docente substituiu as mandalas a compasso por uma atividade mais lúdica, confirmando a importância de ter planos alternativos. A observação ajudou a compreender as exigências do 3.º ciclo.

Preparação para os exames nacionais de Desenho A

Começa cedo (informação da prova em novembro; critérios e cotações do IAVE por volta de abril). A preparação prática assenta na construção de enunciados a partir das grelhas de exame, na adaptação de provas anteriores, na gestão do tempo, na justificação escrita e na análise de provas cotadas numa lógica formativa.

Enunciado da prova prática
Prova prática (21 de maio) Enunciado da prova de preparação para o exame — Surrealismo, Cruzeiro Seixas.
Critérios de classificação da prova
Critérios de classificação Critérios e cotações de classificação da prova prática, adaptados dos critérios de exame.

Outras atividades de estágio

Visitas de estudo

Acompanhamento da organização e realização de três visitas (Guimarães, Lisboa e Porto). Na Bienal de Ilustração de Guimarães os alunos selecionaram cinco obras para reflexão crítica; a visita a Lisboa (com Carlos Bunga na Gulbenkian) deu o mote ao PIP; a visita ao Porto (Serralves, Soares dos Reis e Palácio de Cristal) revelou maior abertura e participação.

Mochila Cultural

Acompanhamento de uma turma do Curso Profissional a um concerto barroco comentado no Conservatório Calouste Gulbenkian, no âmbito do Plano Nacional das Artes. A metáfora da «mochila» enquanto bagagem cultural e a dimensão mediada do concerto aproximaram os alunos de uma linguagem artística distante do seu quotidiano.

Se o vídeo não carregar, vê-o diretamente no YouTube (o player não funciona ao abrir o ficheiro localmente; funciona quando o site está publicado).

Dia do Agrupamento

Preparação e dinamização, com o colega estagiário Daniel Rosa, do workshop «Mundo Geométrico», que desafiava os alunos a construir edifícios e elementos orgânicos a partir de sólidos geométricos. A ausência de instruções diretivas favoreceu soluções originais e a aprendizagem pela ação e pelo erro (Piaget, 1973).

Jornadas do Ensino Profissional

Receção e orientação dos alunos do 9.º ano em contacto com a oferta de ensino profissional, no âmbito da divulgação do curso de Técnico de Design de Interiores e Exteriores. O contacto com alunos em fase de decisão reforçou a importância da versatilidade do docente.

Ação de formação «O Museu como dispositivo político do Século XXI»

Ação de três horas dinamizada por Helena Mendes Ferreira no MUZEU – Pensamento e Arte Contemporânea dst. Abordou a articulação entre escola, museu, território e comunidade, e refletiu sobre o museu como dispositivo de pensamento crítico e cidadania, confirmando temas do PIP.

08 · Avaliação do projeto

Avaliação do projeto

15,2
classificação média (0–20)
16/19
mantiveram ou melhoraram
19/20
sentiram que aprenderam
100%
valorizam refletir sobre a sociedade

Avaliação do projeto

A avaliação cruzou várias fontes: o questionário final, as classificações do 2.º período, as justificações escritas, a grelha de observação, fichas de autoavaliação e o feedback da comunidade nas duas exposições. Os resultados foram globalmente positivos, com a maioria nos níveis Bom e Muito Bom. Indícios concretos confirmaram a aquisição de competências (a prova de memória da figura humana e um trabalho posterior de banda desenhada sobre o «Memorial do Convento»). Registaram-se dificuldades — a reduzida participação espontânea, a heterogeneidade no envolvimento e a falta de assiduidade de alguns — mas o balanço foi positivo, confirmando a pertinência da articulação entre o desenho da figura humana e a cidadania.

O questionário e as respostas

No final do PIP, os 20 alunos responderam a um questionário com 39 questões sobre a importância do projeto, a metodologia, as aprendizagens, o trabalho coletivo e a articulação com a cidadania e a saúde mental.

Ver o questionário completo e as respostas →